Conto: A vida de John Norman
Contos October 26th, 2007por Rey Jr.
Para inaugurar a seção de contos, humildemente inicio com a história de um típico brasileiro. Espero que gostem.
Esta história terminou ontem, mas começou há uns bons meses atrás.
John Norman era brasileiro, assim como eu e você. O emprego na operadora de telemarketing era um inferno pessoal. Fazer uma pessoa compreender seu nome completo utilizando telemarquetês com direito a sotaque de telefonista empurrando produtos que ninguém queria não estava entre as coisas que Norman planejara para sua vida.
O dinheiro era escasso, a esposa estava grávida e era apaixonada por voluntariado, era uma advogada de porta-de-cadeia com escrúpulos, uma verdadeira estranha no ninho.
Sexta-feira. Seis e quinze da tarde e John fazia seu ultimo contato da lista diária que recebia do gerente. Mais uma série de impropérios sobre a impertinência dos vendedores de telemarketing e sua semana havia terminado.
Com uma das mãos em seu ombro direito, um colega de cubículo perguntava se ele não gostaria de entrar no bolão. A oportunidade é um cavalo selado que só passa uma vez. O colega estava usando de marquetês com ele, que canalha. Sua carteira só tinha o dinheiro para o passe de ônibus, Norman não iria abrir mão de sua confortável viagem de uma hora em pé se acotovelando para conseguir apoiar-se no corrimão do coletivo.
As dez da noite John estava em casa. Um par de policiais em sua porta, conversava com sua mulher, em prantos.
“Policiais na porta de minha casa”, pensou John, “isto não é bom sinal. E em prantos, pior ainda, o que será que houve?”
“Senhor Norman, desculpe o mal jeito”, disseram “mas houve um assalto nas redondezas, o sujeito fugiu utilizando a porta dos fundos de sua casa e se evadiu utilizando gás lacrimogêneo. Sinto muito.”
John não estava entendendo nada - sinto muito pelo quê - pensou em perguntar, mas Patrícia adiantou-se em responder, “A polícia disse que o gás estava vencido e que em contato com o ar, o gás lacrimogêneo vencido vira um poderoso corrosivo. Você perdeu sua poltrona preferida, querido…”
Então era isso. Depois de andar por 3 horas numa sexta á noite, trancado de medo por ter que passar por dentro de uma favela, não poderia descansar em sua poltrona favorita que ainda não estava paga. O fim-de-semana prometia.
Mentira. O fim-de-semana foi como os anteriores. Era assim desde que havia se casado há cinco anos. O coito terminava antes de o Cup Noodles ficar pronto no microondas e mais um destes seria o almoço do sábado. O casal Norman não jantava, era um costume barato e saudável. Domingo iam almoçar fora, o bandejão de um real era realmente bom e muitas famílias se encontravam para as fofocas da semana. Alguns até criavam laços de amizade, como sua esposa, mas não ele. A digestão no parque da cidade, uma soneca na grama e um algodão doce de sobremesa completavam o domingo. Patrícia Norman era feliz, conseguia aproveitar os detalhes e a simplicidade de uma vida honesta. John era ressentido, sabia que podia mais, sabia que o mundo era injusto com ele, mas ele iria mudar essas linhas tortas, um dia.
Segunda-feira começou agitada, na noite daquele dia, ás 20 horas correria o prêmio da loteria. E seus colegas faziam plano caso levassem a bolada. Zombavam de Norman por não ter participado da brincadeira mas prometiam ajuda caso ficassem ricos. “Então pelas contas, só pela ajuda prometida eu ficaria mais rico que vocês” murmurou para si.
John chegou em casa ás 19h15m depois de andar do ponto final á sua casa. Sua alma pesada e mil coisas em sua mente, os pensamentos agitados e passando rápido como numa máquina de lavar, daquelas de filme americano.
Patrícia havia feito um jantar especial com arroz á grega, feijão sem caldo e dois bifes á parmegiana para cada um. Havia ficado caro o jantar. Legumes demais, para o gosto dele.
“Tenho uma novidade, John.” Iniciou a esposa com brilho nos lábios. E John sem pestanejar replicou “A TV está funcionando? Já são oito horas?”. “Fui promovida a sócia!” ela disse.
A bomba em Hiroshima causou menos estragos que esta notícia.
John não era um machista, veja bem, ele era apenas um homem simples, de costumes tradicionais como o de pagar a conta no restaurante, sustentar a mulher e os filhos, ter uma amante para praticar o que via nos filmes de sacanagem, ter o salário mais alto por ser o chefe da casa e tomar uma cerveja vez em quando.
Sua esposa acabara de lhe arrombar o peito e expor o coração ao vapor do arroz á grega.
Em seu estado de choque não viu quando a mulher ligou a TV, cuja imagem estava péssima desde o incidente com o gás, para assistir a loteria.
John comeu como um zumbi, forçando um sorrido de satisfação e forçando estar feliz pela promoção da esposa. Dormiu também feito um zumbi, de olhos abertos e mãos sobre o peito. Como um zumbi levantou de sua cama e foi trabalhar, quatro 4 horas antes do necessário. Foi á pé, andando como um zumbi moribundo sem comer um cérebro há décadas. O passo arrastado não fez esforço algum para ir atrás do moleque que acabara de levar o relógio. Tampouco pulou para trás quando um carro obrigou-se a encolher para não atropelá-lo.
Chegou no escritório dez minutos atrasado. Sabia que iria levar um sermão, já se preparava para isto quando abriu a porta e se deu conta. Era terça feira de carnaval.
Confetes, buzinas, gargalhadas, mil palhaços no cubículo. “Ganhamos, seu trouxa! Ganhamos na loteria!”, gritavam e apontavam para ele, o pessoal do escritório.
Quando era adolescente Norman assistiu no cinema a um filme que um parente de seu tio havia dirigido. Fazia tempo, ele não lembrava dos detalhes, apenas de três passagens importantes e as três inundaram sua mente numa meta-analogia bizarra.
O filme começava com um macaco pulando e esperneando, batendo um osso no chão. Lá estavam os macacos no escritório pulando e batendo no peito. A primeira das passagens.
Os macacos haviam acertado no milhar e faziam fila para assinar suas cartas de demissão. O gerente estava possesso. Ele não havia entrado no bolão, já que não se misturava com o pessoalzinho do telemarketing. E mais que isto, estava perdendo 29 funcionários treinados que estavam “andando” para o aviso prévio com uma felicidade insuportável. Quando o último dos macacos assinou a lista, John ouviu em sua cabeça a trilha sonora daquele filme do parente distante, o tal de Kubrick. Era a segunda passagem.
A terceira se iniciou logo a seguir e foi a sensação de estar flutuando, sem gravidade alguma lhe pesando os ombros. Tirando da meia um papel amassado, calmamente John foi se levantando “Engano de vocês. Eu ganhei. Sozinho.”
A anti-gravidade durou algo próximo de um minuto. Um silêncio espacial. E o piedoso John Norman explicou sua afirmação com frieza “Eu disse ao Juarez que não iria entrar no bolão e ele então me pediu para fazer o jogo já que ia sair com a Carmem, não é Toni?” disse piscando para o marido da infeliz “Não se preocupe não “Jura”’ deu ênfase no apelido, “o Toni sabia de tudo tinha um detetive atrás de vocês. O fato é que na lotérica eu mudei de idéia. E fiz meu jogo em separado. Substitui uma combinação que me agradava no bolão pelo meu jogo perdedor. E foi esta a combinação sorteada. Uau, que sorte a minha!”
Os gritos de “canalha”, “Filho da puta”, “bastardo” e as ameaças de morte não tiveram efeito em seu estado de glória. John tinha dado o golpe perfeito, e os mais inteligentes daquele grupo sabiam que nada poderia ser feito. O gerente exultava. John pensou ter visto ele molhar as calças com a promessa de poder re-humilhar a gentalha.
Flutuando, John foi até a lotérica e se confirmou como o único vencedor do maior prêmio já pago pela loteria. Esperou algum tempo antes de retirar o dinheiro. Foi viajar, levar a mulher para gastar em jogatina e se embebedar com vinho caro. Aproveitava os porres da esposa para dar umas escapadas mas voltava sempre antes do amanhecer e acordava-a ele mesmo bebendo vinho em suas coxas.
E hoje, apenas hoje começa a vida de John Norman, o primeiro brasileiro negro a ir para o espaço.

