Livro - Portões de Fogo (Gates of Fire).
Livros November 19th, 2007Por Rey Jr.
A batalha das termópilas é conhecida como um dos maiores feitos dos Helenos. Os trezentos combatentes que seguraram mais de dois milhões de persas com a ajuda de um Estreito é aclamada até hoje e já virou quadrinho, filme, livro, videogame e jogo de tabuleiro. O livro conta a história de um escravo/ escudeiro chamado Xeones, que morre na batalha das termópilas e é ressuscitado pelo deus Apolo para que conte a história de bravura dos espartanos.
Sendo um romance histórico, o livro situa Esparta e região nas configurações de uma guerra iminente contra um império sem precedentes. Os treinamentos, procedimentos militares, a psicologia dos soldados e suas esposas são esmiuçadas e detalhadas até quase a exaustão. Algumas vezes chega a ser cansativo. O trato diplomático e as batalhas contra outros países da nação Helênica também são pontos de bastante ênfase no livro, afinal para os Espartanos, quem não ajudasse na defesa da Grécia era considerado inimigo. Este é o lado histórico do livro, que como em todos os outros tratados sobre os espartanos, seja por historiadores da época, como Heródoto, seja nas obras de ficção, são sempre exagerados.
Mas o livro esclarece alguns pontos que em outras obras parecem incríveis demais. Por exemplo, o livro cita todas as outras polis da nação Grega que levaram combatentes ás termópilas. Neste ponto o livro peca por citar as cidades-estados mas não dar muito mais informações sobre elas. Assim, ao invés de apenas trezentos, temos um exército de aproximadamente dez mil homens, de várias regiões. Ainda era pouco para enfrentar um exército como o de Xerxes, o rei persa. Mesmo assim os Helenos tinham os famosos Portões Quentes como vantagem geográfica e ali, utilizando a experiência de Leônidas, rei espartano, o exército pode se organizar de maneira muito eficaz. O autor também esclarece o porquê de Esparta ter levado apenas trezentos homens que, ao contrário do que se possa imaginar, não era a Elite espartana e tampouco um sinal de respeito ao feriado que proibiam o porte de armas. Para compensar este “pecado”, o exército se desculpou aumentando o número de oferendas e sacrifícios, e parece que foi só.
Esta é a parte histórica do livro, que também contém alguns exageros, mas que é perdoável pois sem isto não se constrói um épico. Certamente não é tão exagerado quanto os quadrinhos ou o filme, apesar de o foco ali ser outro.
Também não dá para falar apenas do livro sem citar referências as outras obras sobre os “trezentos”, que na verdade eram dez mil. Ou seja, não espere ver a plasticidade e o glamour do quadrinho e do filme. Espere sangue, suor e urina. Não necessariamente nesta ordem.
O lado romanceado do livro trata sobre a relação dos personagens com seus amores, seus medos e a busca pela glória, mesmo que pagando com a vida. O personagem principal é o narrador da saga. Ele conta como passou de um garoto livre a um fugitivo, um escravo e a um escudeiro de Esparta. Tudo isto sem esquecer-se de seu tutor e de sua prima Diomache, por quem ele é apaixonado.
Outros personagens também tem relevância. Dienekes- de quem Xeones é escudeiro- e sua esposa. Polynikes, um atleta olímpico comparado a um semi-deus em força, fúria e beleza. Alexandros, jovem como Xeones e cuja coragem é posta a prova apesar de seu jeito efeminado. E, claro, Leônidas que diferente do que se possa imaginar não passava de um sábio e corajoso velho de sessenta anos que subiu ao trono depois que seu predecessor bandeou-se para o lado dos persas.
A inteiração entre estes personagens tornam a intriga acerca da guerra mais interessante pois é revelado que todos tinham seus medos, mas diferiam na forma como lidavam com ele. As mulheres de Esparta eram tidas como verdadeiras heroínas, pois davam seus filhos e maridos ás guerras sem nunca derrubar uma lágrima.
É um fator humano que nunca foi aprofundado em outras obras e que aqui ganha tanto espaço quanto a batalha final que culmina no inevitável massacre dos espartanos.
A narrativa do livro por vezes é pesada, carregada e não se pode jogar esta culpa no moribundo personagem principal. O autor parece querer colocar muita informação sem estourar seu limite de páginas e por vezes isto confunde. A formação de cada exército, a disposição do terreno, o humor do exercito, tudo isto é citado para fornecer um panorama da batalha. Acaba gerando uma certa confusão pelo excesso de detalhes.
Outros recursos de narração parecem também deslocados, haja visto que o narrador é um jovem escravo que não teve acesso direto á educação a não ser nos tempos de liberdade, através de seu tutor cego. O teor da narração que transparece é o do autor historiador e não o de um escravo á beira da morte.
Mesmo tendo por pretexto o fato de a história estar sendo traduzida á sua Majestade por um acadêmico persa, passagens como “…os lanceiros caíam como num jogo de boliche“, “…os pés dos soldados estavam cravados num ângulo de noventa graus…” e “… os sangue jorrando de suas veias e vasos capilares…” nos fazem pensar que o autor esqueceu que quem está narrando é o escudeiro Xeones. Até poderia-se desculpar dizendo que é uma tradução do que o narrador queria dizer em tempos atuais, mas não convence. Ou existia boliche na Grécia antiga? Mesmo que houvesse, estes termos não se adaptam a narrativa de um pobre escudeiro, no geral. O autor tenta fazer do personagem principal seu guia nesta aventura mas por vezes parece que se esquece e começa ele mesmo a narrar, como se tomando a palavra e interrompendo o interlocutor.
Apesar da narração um pouco pesada e por vezes detalhista em assuntos de relevância questionável, o livro merece ser lido. As cenas de batalhas estão entre as melhores que já tive o prazer de ler - e se equiparar a Bernard Cornwell neste quesito é tarefa duríssima - e mesmo não ameaçando o posto deste, são boas batalhas e certamente irão incrementar a sua imaginação com descrições que doerão até em você. Outro ponto alto são os diálogos e frases de efeito, especialmente de Leônidas e das mulheres espartanas.
Se você quer conhecer um pouco mais sobre como foi a maior batalha da Grécia Antiga e tudo o que ela envolveu, então você vai gostar de Portões de Fogo. Steven Pressfield te levará para uma viagem ao mundo da testosterona e das conquistas impossíveis.
E afinal, não é disso que se trata o mundo antigo?
Autor: Steven Pressfield
Editora: EDITORA OBJETIVA
Número de páginas: 394

