Por Rey Jr.

Você se prepara para mais um jogo. A aventura está pronta. A mesa está montada. Os personagens já cruzaram aquela linha imaginária de “além da possibilidade de retorno”. Os jogadores são inteligentes, estão bem organizados e prontos pra ação.

Então a campainha toca. Você, concentrado na ordem correta dos encontros e tentando otimizar mentalmente a tabela de monstros errantes, atende a porta:

“Advinha quem veio para o jantar, primão?!” O parente olha além de ti, para sua mesa com o escudo, miniaturas e dados “Opa, hoje tem RPG? Eu quero !”

Atire o primeiro dado quem nunca passou pela experiência do jogador-fora-de-hora !
Calma lá, se você está fazendo pontaria. Guarde seu dado, pois mais cedo ou mais tarde você também passará por isto e precisará do seu poliedro extra.

Visando minimizar os danos causados por este “convidado”, resolvi escrever 10 toques que podem te ajudar a contornar melhor esta situação. Nem todas as dicas se aplicarão a um mesmo caso mas penso que você irá se identificar com algumas delas!

Por vezes você não poderá negar um pedido de um jogador, por inúmeros motivos. Ela(e) pode ser sua(seu) paquera, ou sua(seu) namorada(o). Pode ser um amigo que você não vê há tempos e não quer rechaçá-lo. Pode ser um novato ávido pra aprender e você sabe que o RPG precisa de voluntários. Pode ser aquele primo que vive espalhando que você é nerd e resolveu te dar uma chance de provar seu ponto. Enfim existe um sem-fim de motivos para você não negar o novo jogador. Ainda assim você tem que lidar com ele, então vejamos o que podemos fazer:

1. Don’t Panic !

A coisa pode estar feia, mochileiro, mas nem tudo está perdido. Como diria a sua avó (e a minha): O que não tem remédio, remediado está. O panico não lhe ajudará a sair da situação, é hora de focar no problema e na sua resolução.

Portanto, não entre em desespero, faça sua cara mais deslavada e responda “Já demorou… PRIMÃO!”. Organize mentalmente todas suas possibilidades e escolha a melhor para o caso em questão. Se o convidado notar seu nervosismo ele pode ficar constrangido ou sadicamente feliz. E você não deve querer nenhum dos seus casos, pois se os jogadores notarem que você não tem o controle da situação, sua sessão pode ir por água abaixo.

2. Mi casa, su casa…

Faça com que o “convidado” sinta-se á vontade. Faça com que ele sinta como se tivesse realmente sido convidado. Quanto mais á vontade ele estiver melhor você poderá manipulá-lo. E em um jogo fechado, a manipulação será uma de suas poucas saídas. Mas ele não precisa saber disto, não?

A manipulação será necessária para que o “elemento estranho” se adapte bem ao seu estilo de jogo, ao seu grupoe não seja “rejeitado”. Afinal queremos que você mantenha o amigo ou senão você não precisaria de dicas. Era só mandar um sonoro “Ah vá pra…”

3. Una-se ao Lado Negro.

Digamos que o seu cenário atual impossibilite definitivamente a entrada de um novo jogador : “Então, vocês vêem uma pessoa amordaçada, equipada e incrivelmente intacta apesar do lugar ser infestado de seres abissais.”. Num caso como este sua melhor saída é recrutar o convidado a interpretar os caras maus. Diga-lhe que não tem como ele ser um jogador, mas que ele pode interpretar o Xamã Ogre ou o Tecnocrata, ou a Geléia Ocre.

Jogadores-fora-de-hora geralmente não se preocupam com uma interpretação apurada e um background detalhado. Eles querem mesmo é rolar os dados. Se for um novato, melhor ainda, ele aprenderá a dar valor á vida de pobres antagonistas que só querem pilhar e destruir em paz.

4. É só acrescentar água…

Que tipo de Mestre/DM/Narrador é você que não tem a ficha de um NPC pronta? Do meu tipo? Ah, então dificilmente você terá um NPC pronto com ficha e tudo.

Neste caso vá até o livro e rascunhe sem muita profusão de detalhes os conceitos de um NPC da campanha. Pode ser o filho do ferreiro, pode ser o mago daquela lojinha fajuta, pode ser aquele carniçal zarolho guarda-costas do Brujah, não importa. O convidado vai aceitar sua sugestão, afinal o jogo é teu ! Faça a ficha deste NPC e dê ênfase ao fato de que ele só irá aparecer hoje, como aqueles figurantes do seriado 24 horas.

5. Faça você mesmo.

A situação exige rapidez, pois provavelmente está em cima da hora do jogo. Então faça você, com sua experiência de Narrador, um personagem novo para o convidado. Mas não faça um personagem para ele. Faça um personagem para você.

Sim, o convidado pode não aparecer nunca mais. Ou aparecer apenas mês que vem. E é você quem vai ter que lidar com esta nova “vida” que acaba de ser criada. Este personagem pode ter dois destinos: 1 - Ele pode ir pro arquivo morto após a sessão. (No último minuto da aventura o novato é atingido por uma flecha, que mais parece um tronco de cerejeira, disparada por um Orc). 2 - Ele pode se tornar um NPC regular. Os jogadores podem ir com a cara do NPC e querer ele sempre por perto, ou o convidado prometeu que volta no próximo feriadão. Em ambos os casos é melhor conservar o personagem não-jogador, até mesmo para dar uma controlada no grupo.

6. Silence ! I kill you!

Entendi. Não dá pra entrar no jogo sob nenhum pretexto. Seus jogadores são uns anti-sociais e tremem apenas de imaginar o XP e o tesouro dividido para mais um. É, meu caro “convidado”, não é seu dia.

Uma coisa é deixar um convidado insatisfeito. Outra coisa é deixar seu grupo inteiro insatisfeito. Se o seu grupo não aceitar o novo jogador, a sua amizade ainda não está acabada. Você ainda pode conseguir conquistar o prestígio dele mostrando o quanto você é hábil com a narrativa.

Neste momento, você sutilmente pede para que o convidado apenas assista á sessão. E aí os jogadores não poderão reclamar, olhar não machuca. E se eles discordam até disto, então não são anti-sociais, são símios disfarçados!

Ao observar você narrando, o inesperado visitante terá uma visão mais dinâmica do jogo como um todo. Quantas vezes você já não ouviu dizer que “quem está de fora vê melhor”? Isso acontece com jogos de estratégia, como damas, xadrez, magic, Marvel hero clix, etc.

Particularmente acho divertido observar uma partida de RPG e você, como Narrador gente fina, poderá mostrar a ele seus planos, as estatísticas do monstro a ser combatido, a ficha daquele NPC fodasso que parece um fracote e o mais divertido, abrir a ele quando você está roubando nos dados, transformando em acerto aquela falha crítica e dando uma canja quando tira um sucesso decisivo.

7. Oh capitão, meu capitão.

Seu amigão-fora-de-hora não pode entrar no jogo? E ele é muito impaciente para ficar só observando? Daqueles que não iriam parar de dar “pitaco” na jogada dos outros, ignorando completamente os olhares de assassínio do grupo neandertal? Pois então, ganhaste um estagiário. Parabéns Mestre!

Mas o que faz o estagiário de Narrador? Bem, consideremos que você tem elevado apreço pelo seu estagiário. Então esqueça o “Vai buscar a Fanta Uva” e “O cara da pizza tá aí, paga ele depois eu te pago…”. O seu estagiário vai te ajudar a narrar melhor cuidando de tarefas que tiram o tempo do narrador, e do jogo.

Algumas das funções básicas do estagiário podem incluir:

- Marcar a duração daquela magia/disciplina/dom;

- Contabilizar os pontos de vidas restantes de um antagonista;

- Deixar separadas as miniaturas utilizadas nos encontros;

- Fazer a “dublagem” de algum NPC em específico- “E então vocês encontram uma garotinha chorando (Apontando para o convidado)”

- Anotar o número de monstros que foram abatidos para depois você contabilizar os XP’s

- Etc, esta lista pode se alongar até onde sua mente maquiavélica permitir, com serviços tão dignos quanto for sua amizade pelo estagiário.

8. We don’t need another hero!

Você pode ser daqueles Narradores criteriosos que não gostam que nenhuma pedra abale o plácido lago que é sua campanha. Sua saída então é mudar de jogo. Sim, sua sessão mesmo já estaria arruinada mas nem por isto você precisa se privar de jogar.

São várias as soluções que você pode adotar, entre elas:
- Jogar um cenário diferente;

- Pedir para um dos seus jogadores narrar desta vez;

- Jogar uma aventura rápida, a chamada One-Shot;

- Jogar um “flashback” ou “flashfoward” de sua campanha ou cenário, contando histórias sobre outros heróis ou sobre alguns pontos obscuros que os jogadores sempre quiseram saber;

- Jogar um rápido prelúdio dos personagens e então você poderia encaixar seu convidado como um NPC em comum a todos os personagens ou um amigo de longa data;

- Jogar um jogo de cartas ou de tabuleiro como se fosse parte de um enigma ou de um desafio á lá ‘Casino Royale’ de sua campanha;

- Etc., são também infindáveis as possiblidades para evitar jogar, jogando.

“Evitar de jogar, jogando” parece ser o termo correto aqui. Você não compromete seu jogo, e nem perde uma tarde de diversão. Apenas adia sua campanha para a próxima sessão quando a visita não estiver.

9. Então é a sua vez!
É raro, mas pode acontecer. O convidado pode ser um narrador e seus problemas terminam. Você joga tudo nas mãos dele e diz sarcasticamente : Então é a sua vez de narrar! Vamos ver do que você é capaz.

Se o convidado estiver relutante, você pode utilizar o método DVPoF (De volta para o Futuro). Vire para ele e repita esta frase calmamente: “Chicken, Mcfly?”. Se ele for um RPGista que honra as calças ele vai ficar possesso, pegar os dados da sua mão e responder : “Ninguém me chama de franguinho !”. Voilá, meio revoltado, mas você terá um Narrador. Só não espere que seu personagem sobreviva!

Botar o convidado para narrar pode parecer deselegante, mas ele perceberá o quão ruim é ser pego de surpresa. As chances deste jogo dar certo é remota, portanto leve tudo com bom humor e não espere do narrador a aventura do século.

p.s.: Se você não entendeu o método DVPoF você é uma vergonha para a comunidade ! ;-)

10. Tu és responsável por aquilo que cativas.

Título brega de frase de msn, mas é por aí mesmo. Sua função como narrador é conduzir uma partida de RPG. Mais que isto, é entreter-se entretendo outras pessoas. Se você se preparou para jogar e seus jogadores se prepararam para jogar, então que haja o jogo! Obstáculos sempre vão aparecer e o Narrador precisa ser como a água que ao invés de bater de frente, contorna.

O narrador, bem como os jogadores não podem ser imutáveis. Um jogo muito restrito, preto-no-branco perde a graça rapidamente. Porém, você é quem tem a maior responsabilidade por este grupo de jogo e deve prezar por manter as coisas em seu ritmo. Não é porque o personagem do seu convidado estragou uma aventura que você deve levar isto para todas as outras sessões.

Digamos que o convidado pegou um NPC pronto e traiu o grupo, vendendo informações para o arqui-inimigo deles. Isso pode prejudicar seu jogo, mas melhor do que coibir este jogador-fora-de-hora é tornar isto uma “mini-aventura” para o grupo, dando uma bela chance de sucesso aos personagens.

Enfim, cuide do seu jogo mas não tenha medo das atribulações. Elas estão aí pra dar mais sabor no final.

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Bem, estas foram as dicas que me pareceram mais viáveis para contornar de maneira saudável o problema do jogador inesperado… Mas, se seu convidado for um chato (e estes sempre sabem a hora “exata” para aparecer) você tem liberdade para utilizar os próprios métodos… Só depois não vá por a culpa no RPG, seu maníaco!