Hoje é aniversário de meu caro amigo, ex-carcereiro de masmorra, Rafael DBrain.

E em sua homenagem vou postar um conto muito bom de sua autoria (apesar de ele não admitir), que inclusive teve sua própria série com as Essências de todas as classes básicas de D&D. (A Essência do Ladino é memorável, se ele permitir postarei aqui.)

Então fiquem com este conto do visionário Dbrain que já sabia de antemão que os Draconianos seriam uma raça “básica” de D&D e, mais que isto, seriam ótimos Paladinos. Taí um cara que parece gostar de D&D 4 E!


A luta continuava implacável. Éramos dois dragões lutando com o máximo de nossas forças por objetivos opostos, ou melhor, um dragão e um meio-dragão. Eu sou Sir Nicktson Thoutar, filho do paladino Bruce D’ La Lutz e da dragoa dourada Goltiveritablemeko. Eu sou um meio dragão.. meio humano.

 

Meu adversário neste momento é o poderoso dragão vermelho Kotaranawan, que assola este pequeno vilarejo que estou tentando proteger. Os indefesos plebeus da vila assistem a luta numa distância segura, temendo por suas próprias vidas e temendo ainda mais que meus poderes sagrados não sejam suficientes para derrotar a criatura.

 

E provavelmente eles não são. A verdade é que meu sangue de dragão está sendo fundamental, pois é ele que me deu a força de um gigante para conseguir atravessar as escamas do predador rubro e principalmente foi este sangue que me tornou naturalmente imune a qualquer tipo de fogo, seja mágico ou natural.

 

Assim, a baforada e todas as magias relacionadas a fogo não surtiram efeito algum em mim. E a armadura e o escudo que herdei de meu pai fazem o serviço de impedir que suas garras me rasguem com facilidade. Minha espada sagrada é empunhada com honra e lealdade e encarrega-se de contra-atacar o maldito.

 

Esta afinal é a sina de um paladino. Eu, por exemplo, tenho o corpo coberto por finas escamas de dragão dourado e possuo presas e garras fortes como o aço temperado por um anão, logo não fui bem recebido por um só habitante da vila, pelo menos até que surgisse a idéia de me mandar para derrotar este dragão. Eu já não me sinto mal com isso, acabei me acostumando com isso, principalmente num estilo de vida como o meu. Minha aparência acaba me servindo para eu saber quem julga pelos olhos e quem julga pelo coração. A verdade é que o grande deus da justiça não se importa, pois todos merecem uma segunda chance, uma chance de corrigem seus erros ou de confirmarem seus acertos.

 

Kotaranawan luta como um guerreiro honrado e em momento algum tentou voar para escapar de meus ataques ou ter vantagem sobre minha pessoa. Sua vontade de viver também é tremenda e considerando o fato de eu estar sozinho, ele é um adversário espantoso e assustador. É provavelmente muito mais poderoso que eu, contudo…

 

Contudo… ele perdeu vários ataques com sua baforada e com diversas bolas de fogo tentando inutilmente ferir meu corpo, o que já equilibrou nossa luta e agora eu tenho um único diferencial, que provém da graça divina do deus da justiça. Uma única vez por dia, posso chamar todo o bem Dele para minha espada e dar um golpe capaz de esmagar todo o mal. ESTA é minha única chance e pretendo aproveitá-la.

 

A luta cessa por instantes. Começamos a nos avaliar mutuamente. Procurando uma brecha em nossas defesas. Eu particularmente procuro algum local em sua carapaça que não pareça ser tão duro e resistente. Imagino que ele faz o mesmo em relação à minha armadura. Eu ergo minha espada longa que brilha com os raios do sol. Todo o mundo deixa de existir em minha volta, as casas destruídas por fogo, o vento com um ar quente, as pessoas mudas com olhar atônito e todos meus sentimentos. Restam duas coisas: minha fé e Kotaranawan.

 

Eu noto cada um de seus pesados movimentos. Cada uma de suas estranhas respirações. Percebo cada um de seus ferimentos e onde inclusive ele parece sentir mais dor. Noto suas presas duras como aço e suas garras mais afiadas que qualquer espada que eu já tenha visto em minha vida. Eu olho nos seus olhos reptilianos e por mais estranho que isso possa parecer, noto vida, noto vontade de viver.

 

Ele teme me encarar e é o primeiro a sair da posição de defesa. Ele estica seu longo pescoço e tenta cravar suas presas em volta do meu corpo com sua gigantesca mandíbula. Ele consegue envolver-me com sua boca, mas a única coisa que consegue morder é meu escudo prateado. Eu cravo minha lâmina verticalmente de baixo para cima, o que certamente perfura sua mandíbula inferior e o nocauteia pela quantidade de sangue expelida.

 

Gritos, urros e “vivas” dominam os ares. Os camponeses se aproximam com grandes sorrisos em suas bocas. Eu, cheio de sangue que pertence tanto a mim, quanto ao dragão, me permito sorrir. Todavia meu sorriso não dura por muito tempo.

 

“Mate-o”, “Mate-o”, “Mate-o” - eles dizem.

 

A sede de sangue que por vários momentos havia me dominado, cresce em cada um deles. Eles odeiam este predador com todo seus corações e por vários momentos deixam de ser humanos para também se tornarem predadores, mas não predadores que apenas buscam o alimento, mas um tipo maligno que predador que deseja vingança, morte, tortura.

 

Noto que o dragão ainda está vivo. Seu olhar é sério e penetrante. Percebo que sendo um dragão vermelho, ele nunca será capaz de pedir perdão pelos seus atos. Começo  a notar que ele já não é tão grande ou assustador como parecia. Parece-me agora quase um bebê, enquanto cada um dos camponeses parecia, à sua forma, um dragão muito mais assustador.

 

Concentro-me e paro de ver através de meus olhos para ver através de minha fé, do meu coração e noto que o dragão não é maligno, enquanto várias pessoas nesta vila o são. Justamente um homem de coração negro parte para cima do dragão com intuito de matá-lo. Eu empurro o homem, jogando-o contra o chão…

 

Todos se calam.

 

Volto-me para o dragão: “Vá em paz, Kotaranawan. E nunca mais volte nesta vila, pois corações mais sedentos de sangue que suas garras poderão pega-lo em uma possível próxima vez”.

 

Assim ele bateu asas com dificuldade e fugiu. Pedras começaram a voar em minha direção, mas não dei muita bola. Frases que diziam o quão maligno, feio ou monstruoso também foram arremessadas em minha face. Com todo orgulho que ainda me restava, subi em meu cavalo e fui lentamente deixando a vila. Quando ameaçaram atacar meu parceiro eqüino, cuspi uma baforada de fogo (que não foi útil contra Kotaranawan) em uma árvore. Ato que foi suficiente para lembrá-los que eu havia vencido o dragão que eles tanto temiam.

 

Saí da vila pensando na minha gigantesca estupidez, em como poderia ter detectado o mal desde o começo e evitado problemas. É claro que várias magias poderiam cobrir a verdadeira tendência do monstro, mas começo a me questionar se sou um monstro por causa de minha parte draconiana ou … Afinal, o que habita no coração dos homens? Como alguns podem ser tão incríveis como meu pai para despertar paixão em seres ancestrais como um dragão dourado e como podem outros serem tão malignos?

 

Bem, não há muito tempo para divagações, sempre há um mal ocorrendo e alguém necessitando de ajuda, logo em algum lugar estão precisando verdadeiramente de minha ajuda. Continuo cavalgando por dias até ser mal recebido e preso em uma cidade maior. Sou libertado, quando descobrem que sou paladino e quando imploram por ajuda. Eu não fico com remorsos, apenas escuto suas histórias e parto em busca do mal.