Cheiro de Cliché
A vida de um menestrel não é lá muito fácil. Tudo bem que você tem passagem segura por muitos locais – dizem que maldição de bardo pega – e poucas cidades se recusam a abrir os portões a você, já que é você quem porta as notícias dos reinos. Tem também o fato das mulheres derrubarem seus lenços onde quer que você vá e as crianças o seguirem como ratos atrás duma flauta, mas não é fácil.
Ainda mais quando o Conde Coldbrig o contrata em caráter permanente para alegrar a sua pequena corte. O bardo é um andarilho por si só e ficar estacionado não o agrada, mas o dinheiro é bom, a comida e ótima e a condessa… Bem, comecemos logo esta história.
Os meses passaram rápido, você se lembra. O Conde é um boêmio e organiza festas semanais gastando o dinheiro de seus vassalos com a sabedoria de um basilisco. Você tem sua própria residência, longe da mansão do conde, e goza de muitas regalias. Você se lembra com carinho da primeira das festas que organizou na Mansão. Foi a maior. Você ainda era a novidade e a Mansão Mitral ficou lotada de nobres de todos os locais do reino.
Neste dia você conheceu a Condessa Layna. Do alto de seus 16 anos, prometida ao conde Coldbrig desde o nascimento, ela se encantou pelo som de sua harpa. A noite de vocês continuou após todos terem ido dormir.
Alguém bate á porta vigorosamente, despertando-o de seus sonhos com a Condessa. De um salto você levanta da cama já semi-vestido e coloca suas botas – um bardo sempre preparado para uma fuga vale por dois. O sol começa a despontar seus raios timidamente tocando a cidade. Ao abrir a porta e olhar para fora, você vê um vulto apressado dobrando a esquina. Aos seus pés – oh que surpresa – um cesto de piquenique. O cheiro de clichê toma conta do ambiente e você precisa agir rápido.
Um cesto á seus pés e um vulto na esquina. O que você faz?
A opção vencedora, com 50% dos votos foi: Investiga a cesta, orando para que seja um serviço de entrega da esposa do padeiro?
Mastim Albino
Alguém bate á porta com força e insistência. Você se levanta apressadamente e as batidas continuam. Você abre a porta e não há ninguém lá fora. Aos seus pés uma cesta.
Sem importar-se muito com as conseqüências, você abre a cesta e o impacto da horrenda visão o joga para trás. Sua própria cabeça decepada repousa na cesta, a boca costurada. Você sempre acorda de sobresalto levando as mãos á boca, evitando gritar para não rasgar os lábios, mas logo se dá conta de que foi novamente aquele pesadelo.
Este é um sonho recorrente há alguns anos e a cena que se posta á sua frente agora é muito parecida com ele. Em seu sonho você nunca consegue evitar e sempre abre a cesta, desta vez não será diferente.
Seu coração se acelera, você toma fôlego e levanta a tampa. Uma cabeça. E junto com ela você nota o restante, preso á cabeça está o corpo de um recém-nascido. A criança parece estar dormindo, envolta em um pequeno cobertor de peles e um alfinete prende um bilhete. A caligrafia é conhecida, mas trêmula:
“Meu grande amor,
Pedi para que entregassem a ti nosso filho. Escondi de todos minha gravidez, esperando poder entregar nosso fruto a um mosteiro, assim não arriscaria sua vida como faço agora. Dar a luz me consumiu sobremaneira e estou me esvaindo. Não sei por quanto tempo permanecerei neste mundo. Foge com nosso filho para longe do Conde, assim nosso amor não terá sido em vão. Dê a ele um belo nome e ensine-o as belas coisas.
L.”
O mundo geralmente não costuma parar. Mas parou. Lendo e relendo o bilhete você faz força para acordar, mas é em vão. A realidade o estapeia sob a forma do choro de uma criança. Sem querer acordar mais ninguém, você recolhe a cesta e a leva para dentro de casa.
As palavras “fuja” e “para longe” ressoam em sua mente como uma nota desafinada. Seguindo seu mais básico instinto, você recolhe seus poucos pertences- entre eles o sabre prateado e sua inseparável Harpa de ébano.
Você carrega a cesta á tiracolo e parece que o balançar nina a criança, calando-a – Obrigado, deuses – você murmura.
Faltam poucos metros para alcançar o estábulo de onde você pretende emprestar uma montaria, mas na encruzilhada da rua da Praça com a Rua da Guarda você ouve apitos frenéticos e latidos. Os cães estão atrás de mim, pensa. E ao se virar para apressar o ritmo da fuga, você se depara com um cão-de-guarda. Aquele mastim branco em meio á noite gélida, ouriçando os pelos e rosnando em sua direção deixam poucas opções.
Um Mastim Albino entre você e seu destino.
A opção vencedora foi: “Saca seu sabre. Uma estocada certeira é limpa e silenciosa”
O Futuro te Pertence
Criatura das profundas – você pensa – vou exterminar com sua raça miserável. Segurando a cesta em uma mão, você saca seu sabre e tenta recordar suas poucas aulas de esgrima: En guard!
A estocada é curta, rápida, angular, visando a coluna espinhal. E errada. Você se lembra agora por quê seguiu o caminho da música ao invés do caminho das armas. O cão ataca, as presas da fera fincam-se na parte interna de sua coxa e a dor é lancinante. Percebendo que o sangue verte em grandes porções você luta para não desmaiar, a dor impede-o de concentrar ataques mais efetivos. De súbito o cão geme e o larga, dá alguns passos numa tentativa de fuga e tomba. Uma seta enterrada nas costelas.
“Nunca gostar de cães” – você ouve. Parado a 5 metros de distância você vê uma silhueta de um metro e noventa. Ele se aproxima e você o reconhece: Durga, o meio-orc.
Durga é daquele tipo de gente que você tem que ser amigo, mas não muito. Como todo meio-orc, Durga tem sérias restrições quanto á ordem estabelecida e seguir a lei das autoridades não está entre suas prioridades. Você agradece e ele percebe que você está com pressa. Antes de prosseguir em seu caminho, o orc ainda tem tempo de lhe dizer: “Bardo se jogar entre Durga e o cão, grande ajuda!”
O estábulo está logo á frente e você escolhe um cavalo robusto enquanto imagina como sua sorte pôde ter virado desta maneira. E para melhorar, agora podem te acusar de comparsa também.
O ferimento na perna dificulta a cavalgada e antes de partir você ouve os guardas sacando suas armas enquanto bradam: “Lá está o meio-orc, peguem o bandido!”
Após se afastar por alguns quilômetros você tem tempo de providenciar uma atadura improvisada e estancar o ferimento – correr não vai ser uma opção por algum tempo. Durante todo o dia você cavalga, sua sorte de bardo – coisa que você acreditava ter lhe abandonado – providencia leite bovino para a criança, quando uma vaca surge no meio da trilha.
A noite chega e você pára em uma capela na beira da estrada. Estas capelas são famosas por ajudar os peregrinos e um viajante sempre encontra salvaguarda, comida e cama. Sem conseguir dormir, você pensa no bilhete da Condessa e como sua vida poderá mudar. Considerando a questão por diversos aspectos você se lembra de amigos, favores que lhe devem, orfanatos e mosteiros. Amanhece sem dormir e com uma importante decisão a tomar. Que futuro você dará a seu filho? Você lista as pessoas com quem você pode contar:
Os Clérigos do Mosteiro. Eles ensinarão a seu filho o caminho dos deuses.
Seu melhor amigo, o anão Harull. Um honrado homem de armas, pequeno no tamanho mas gigante no coração.
A elfa Svanja, Bruxa-Herdeira da Senda dos Elfos. Quando era uma de suas amantes, a jovem bruxa sempre pediu um filho seu.
Kallindros, o vice-reitor da Grande Universidade Arcana. Diz-se que os maiores magos são órfãos.
A última opção a passar pela sua cabeça, é você não entregar a ninguém. Como seu primeiro ato altruísta você ensinará a seu filho tudo o que sabe.
Com quem ficará o rebento?
A Opção vencedora foi: Você Mesmo
18 Anos e 363 dias depois
Tomando provavelmente a única decisão altruísta na sua vida, você resolve ficar com a criança, e ensiná-lo tudo o que sabe. A paternidade real da criança tem pouca importância agora – certamente não é filho do conde, e encaminhá-lo a qualquer um dos seus amigos certamente acarretará em grandes problemas para eles. Certamente não é fácil cuidar de um bebê, mas o seu charme o ajudará a encontrar uma mãe logo.
Os anos se passaram, sempre mais rápidos do que se gostaria, e sua vida seguiu de maneira relativamente tranquila – ou tão tranquila quanto pode ser a vida de um bardo. Seu pai, um menestrel mulherengo, ensinou-lhe desde canções que falam de heróis cuja existência se duvida, até o manejo do sabre – e talvez pela prática excessiva nas várias tavernas pelas quais vocês passaram ao longo dos anos, você se tornou um bom espadachim. Seu pai nunca falou muito sobre sua mãe, e com o passar dos anos você aprendeu a não perguntar.
Há poucos dias vocês chegaram à cidade onde estão agora: não é um lugar muito grande, mas por se tratar de um entreposto comercial, que cresceu graças ao grande volume de caravanas que passavam pela região, é bem servido de boas tavernas e estalagens, mulheres para conhecer e muitos comerciantes que pagam para serem distraídos com músicas e histórias. Depois de uma longa noite de danças e bebedeira, que acabou na cama de uma bela viajante [de formas generosas], você rumava para seu quarto quando surpreende um desconhecido saindo de lá sorrateiramente. Graças à parca iluminação de tochas, você percebe o brilho, provavelmente de um punhal, sendo escondido. O que você faz?
Uma faca no escuro…
A Opção vencedora foi: “Procura seguir o intruso tentando não ser percebido. Segui-lo certamente irá levar você a descobrir quem é e o que planeja.”
Um Bardo a menos…
Você se esgueira pelas sombras. Seu pai o ensinou como aparecer na multidões, mas algumas pessoas o ensinaram a desaparecer. Você busca em seu bolso uma porção do raro cristal em pó e entoa uma palavra de poder. Logo em seguida você está invisível a olhos mortais, como diria tia Svanja.
O sujeito sai pelas ruas, tentando evitar atenção e entra em um beco.
Você o segue e percebe que ele está conversando com alguém. O seu tom de voz é grosseiro e até mesmo sussurrando o sujeito fala alto:
“Cuidei do Bardo, ele deve estar cantando no inferno uma hora dessas. O garoto não estava lá, mas fique tranqüilo, eu pego o bastardo.”
“Você deixou a marca que eu ordenei?”
“Conforme o combinado.”
Ao ouvir este diálogo sua alma gela e você deixa escapar um grunhido de espanto, que chama a atenção das duas sombras á sua frente.
Saindo dali para não ser descoberto, sua única intenção é voltar para o seu quarto e procurar seu pai.
Ao chegar à estalagem, ainda invisível, você nota que há uma multidão do lado de fora e alguns guardas já se aproximam. Sob o efeito da magia você se esgueira para onde era seu quarto e lá encontra o corpo de seu velho pai com um olhar horrorizado estampado e o que parece a letra “C” marcada com uma lâmina em sua face. E não há mais nenhuma marca de ferimento.
Você faz uma prece pela alma de seu pai. O efeito da magia terminou enquanto orava e você recolhe suas coisas. Um pouco de dinheiro, a harpa de ébano, o sabre e o um pequeno saco de ervas-de-ver-deus.
Neste instante alguns guardas entram no pequeno quarto. Em um ato instintivo você procura por rotas de fuga e nota duas: A janela – o quarto está no segundo andar – e a última porção de “cristaldust” em seu bolso.
Você pensa no que seu pai faria: Seria muito fácil escapar invisível. E se vingar atravessando a garganta do maldito! A fuga não resolve muita coisa. Talvez um bom papo?
É, seu pai tinha uns pensamentos bem caóticos.
O que faz?
Guardas! Guardas!
A Opção vencedora foi: “Explica que você é o filho da vítima e conta todo o ocorrido”
Último Adeus
“Senhores, eu sou filho deste homem. Podem perguntar ao taverneiro que nos viu chegar juntos. Sou uma vítima também.”
Sua história convence. Poucos deixariam de notar a semelhança entre vocês dois, afinal. Os guardas pedem para que você verifique se algo foi roubado e solicitam que você os acompanhe até o corpo-da-guarda para registrar sua versão e suas suspeitas.
Você tenta convencer os guardas de que não está em condições mas fica desarmado quando ouve da boca deles que se não comparecer pode ser apontado como suspeito. O jeito é resolver tudo isto na conversa. Seu depoimento dura bastante tempo, mais do que você imaginaria e o chefe da guarda o fez recontar sua história várias vezes, provavelmente esperando alguma contradição.
“Qual seu nome rapaz?”
Qual seu nome, filho?
“Me chamo Thomas”
“O que veio fazer na cidade, Thomas? É sua primeira vez na cidade? E veio tocar seu instrumento? Você é fugitivo de alguma cidade? E seu pai? Como é mesmo o nome da Dama que lhe fez compania até alta madrugada? Ela pode falar em sua defesa?”
Você responde da melhor maneira possível e o chefe-da-guarda não é agressivo. Seu velho pai (incrível pensar que ele esteja morto) já contou diversas histórias sobre interrogatório e como eles se aproveitavam dos bardos errantes ameaçando-lhes cortar a lingua ou alguns dedos. Não era o caso, ao que parecia.
O dia raiou e você foi liberado. Na taverna, o clima estava tenso. O papa-defuntos havia passado e deixado sua aura mórbida no local, você foi orientado a procurá-lo. O taverneiro se aproxima e lhe pede que pague sua conta e saia de seu estabelecimento pois você já havia feito muito mal aos negócios e a sua filha.
O mundo é mesmo injusto, a garota parecia ter gostado.
Enquanto se dirige á Funerária, nome dado aos templos do deus da morte, você pensa em como em tão pouco tempo sua vida havia mudado tanto. Seu pai sempre disse isso: “Quando você nasceu, minha vida mudou muito em pouco tempo.”, parece ter sido este seu legado.
Ao entrar no templo, você divisa vários ritos acontecendo ao mesmo tempo. Cada um seguindo o código de um deus diferente. Você mesmo nunca parou pra pensar nisto. Você nunca seguiu uma religião fervorosamente, apesar de praticar alguns ritos de proteção por força do hábito. Um dos clérigos do deus da morte, perjorativamente o papa-defunto, se aproxima movendo-se languidamente em seus robes cinzas, como se estivesse flutuando.
” Meus pêsames por ter ficado, meu jovem.”
“Ficado onde?”
“Aqui. No mundo de argila. Que seu nome seja chamado brevemente, em que posso serví-lo?”
“Meu pai foi trazido para cá, ele foi assassinado na Taverna Bom-Pão.”
“Amém a isso, meu jovem.”
“Eu preciso enterrá-lo. Onde está seu corpo?”
“Enterrá-lo? Achei que você fosse do norte, me enganei. Se você fala do homem com a letra “C”, ele está sendo preparado adequadamente mas antes eu gostaria de falar-lhe, se me permite.”
“Eu já tenho seguro de vida…”
“Sim, claro, digo, não era a isso que me referia. Seu pai faleceu sob condições muito especiais, sabia? Ele não tem marca de ferimentos, nem de concussões, é como se tivesse sido assassinado por magia. E isso nunca é bom sinal, você sabe…”
“Dizem que a magia não mata, apenas expulsa a alma pra fora do corpo, conheço a lenda. Mas eu não sei se acredito nisso, tenho uma tia que…”
“Deveria acreditar. Olhe, estamos com preços especiais para determinados rituais funerários que não tem muita saída. Um deles é o ‘Último Adeus’.”
“Último Adeus?”
“Sim, foi desbancado pelo “Minuto do Adeus”. Este é mais caro, mas tá saindo bem… Com o Último Adeus você tem a chance de trocar duas palavras, veja bem, duas palavras com o falecido. Como provavelmente a alma do seu ente ainda ronda por aí, pode ser que você consiga um bônus… Por apenas 3 mil rublos…”
Mas que charlatão, você pensa. Querendo lhe arrancar dinheiro nessa hora tão difícil.
E você tem apenas Mil rublos, depois de pagar a Taverna. Você pensa em suas alternativas, encarando o clérigo pra tentar descobrir se ele o está enganando. Você se lembra de pensar por diversos prismas, como seu velho ensinou – Filho, sempre que um bardo não pode pagar, ele propõe a universal lei do Escambo: A pessoa pega para si um pertence teu de valor equivalente. Como tudo na vida, é um jogo.
“E então, meu jovem, qual sua resposta?”
O que me diz?
As Opções vencedoras foram: “Thomas” e “Não tenho o dinheiro. Que tal um Escambo?”
Entre a vida e a morte
Você considera suas opções e então decide arriscar.
“Bem, Sr. Agente, eu não tenho todo este dinheiro. Ofereço um Escambo.”
O clérigo funerário, também chamado de agente arregala os olhos em indisfarçada surpresa e em seguida parece querer perfurá-lo com o olhar, o canto da boca retorcido num esforçado sorriso.
“Você é esperto, jovem.”
“Thomas.”
“Você é esperto, Thomas. Sabes bem que um comerciante honrado não pode negar um pedido de escambo. E não me dê este olhar, você é um bardo, sabe mais que ninguém que isto é um negócio. Todas as igrejas são, em honra a nossos deuses devemos prosperar. Então aceito seu escambo sob uma condição.”
“Não comece com isto…”
“É simples. Eu realizo o ritual e em contrapartida você utiliza este amuleto mágico que nos avisará quando você for chamado pela doce voz do além. Nós o buscaremos e o enterraremos sob nossas terras.”
“Isso quer dizer que vocês terão a posse do meu corpo?”
“Quer dizer que você será enterrado próximo a seu pai. Nada mais.”
Você desconfia, mas não tem outra escolha. Você ofereceu o escambo e retirar o pedido poderia significar a perda do maior bem do bardo – sua palavra. Acenando positivamente ao ver que você tem que aceitar, o clérigo sai para preparar o ritual.
Duas horas depois, você se encontra defronte o corpo de seu pai, repousado numa mesa de pedra. Ele teve seu cabelo raspado, as unhas cortadas e seu corpo foi coberto por um pó branco que preservava o corpo e, segundo os agentes, prevenia que o corpo fosse possuído por espíritos ou demônios.
O amuleto que lhe foi dado é azul turquesa – “Sinal de que você ainda é puro, Thomas” – e pulsa quase imperceptivelmente.
O ritual se completa entre cânticos e incensos. O ar estala e crepita como uma fogueira e a energia mágica forma uma silhueta azulada humanóide, despojada e desdenhosa, ombro apoiado numa coluna imitando os trejeitos de seu velho, com o mesmo sorriso. O agente acena para que você diga seu adeus.
Você tem apenas duas palavras e muitas perguntas:
“Quem foi?”
A silhueta senta-se junto ao corpo na mesa de pedra, como se tudo fosse muito natural e apontando para a porta olha para o agente, que se levanta em reverência e deixa a sala.
“Conde Coldbrig.” ecoa uma voz fantasmagórica, de além dos planos materiais.
Você tentou perguntar quem era este, mas a silhueta se desfez tão rapidamente quanto apareceu. Agora suas dúvidas são ainda maiores e as respostas são escassas.
Você deixa o templo, após acompanhar o enterro. Realmente estes caras sabem fazer uma bonita homenagem, você pensa. Enquanto caminha sem rumo você sente uma presença, que se dispersa assim que você decide dar um pouco de atenção.
Alguns minutos depois, sua mente está ocupada demais para notar que está sendo seguido e ao passar por uma esquina sem movimento dois elementos se fazem notar, seguido por um terceiro. Você está cercado.
Um deles se parece muito com a sombra que você seguiu até o beco. O homem sorri com brilho nos olhos, como se já o conhecesse. Você tenta se controlar para não se lançar sobre ele.
“Agora é sua vez, bastardo!” – O ser diz em voz gutural, revelando qualquer coisa de inumana, enquanto sua mão brilha em azul produzindo rápidos estalidos. Magia.
Esta é a hora que todo guerreiro anseia. O prenúncio da batalha, o silêncio que anuncia a última chance de recuar. E você só tem uma coisa a fazer.
Seguindo mais um instinto do que realmente um ímpeto racional, você se esquiva de um raio azulado que chamusca a parede ao seu lado. No entanto, não consegue impedir a lâmina de um dos homens de chegar-lhe às costelas – talvez o agente funerário tenha a oportunidade de enterrá-lo antes do previsto. A lâmina reta e enegrecida do terceiro é repelida pela sua, que com um contragolpe rápido consegue desarmá-lo. O metal negro cai sonoramente no chão, e por um breve momento você acompanha sua trajetória com os olhos. Idiotice.
O homem de habilidades mágicas dá um sorriso distorcido quando percebe sua distração, e você nota tardiamente quando ele lhe golpeia com uma lâmina curva. O que aumenta sua raiva não é a dor do ataque, mas o fato de sentir algo mais – veneno. Sentindo a sua perna paralisar, você pragueja, amaldiçoando a prole desse desgraçado. Vendo que está em uma posição muito desfavorável, resolve tentar correr e subir nos vários barris, onde imagina que ficará menos vulnerável.
Talvez por ser inesperada e insana, a manobra é bem sucedida. O patife que perfurou suas costelas tenta em vão atacá-lo, mas consegue cortar a tira de couro que prendia a harpa ao seu cinto. Ela cai no chão de pedra, fazendo muito mais barulho do que o esperado. Na verdade o instrumento emana uma poderosa onda sonora, que por muito pouco não atinge você mesmo. O covarde cai no chão, atordoado, enquanto os outros dois avançam na sua direção.
Estando acima dos seus adversários, você poderia se preparar melhor para os ataques – ou era isso que imaginava. A perna debilitada atrapalha muito sua movimentação, e um ataque inesperado de um dos seus inimigos o deixa ainda mais vulnerável: o homem que você desarmou poucos segundos atrás, demonstrando uma força descomunal, derruba um dos seus apoios, e você cai sentado no chão, duplamente humilhado. Desgraçados.
Reagindo o mais rápido que pode, você chuta o joelho do assassino desarmado, que por sorte perde o equilíbrio e cai no chão. Esticando o braço para pegar a espada de metal negro, você mal olha quando arremessa a lâmina na direção do homem – mas escuta o barulho oco da lâmina penetrando carne, e torce para também haver veneno ali.
Com o assassino do seu pai, no entanto, a sorte não é a mesma. Aproveitando-se do fato de você estar no chão, ele desce o punhal certeiro no seu estômago. Gritando de dor e raiva, sentindo o gosto de sangue na boca, você xinga e desfere um chute no desgraçado. Com a violência do golpe, o sujeito se afasta – tempo o suficiente pra que você desembainhe sua própria espada e o ataque. Ele parece prever suas intenções, e as lâminas se cruzam, barulho de metal cortando a noite.
Porém você tem um trunfo ao seu favor: com a mão livre e estando no chão, bastou juntar um pouco de lama e areia, que com um arremesso perfeito chega ao rosto do assassino. Ele recua, dando o espaço e tempo suficientes para que você possa levantar. E você o faz, mas não sem humilhar seu adversário – um ataque certeiro no joelho o deixa ao chão, à sua mercê. E então?
Entre a vida e a morte:
A opção vencedora foi “Isto não vai ser bonito de se ver, mas eu vou adorar cada segundo…”
Vingança Envenena
Sentindo o gosto de cobre no sangue na boca você cospe e, levado ao limite pela morte de seu pai e pelo ataque covarde desses brutos, abre um sorriso maníaco enquanto profere: “Isto não vai ser bonito de se ver, mas eu vou adorar cada segundo…”
Você dá dois passos a frente e o assassino limpa os olhos, apenas para ver seu sabre deslizando, como uma faixa de prata sob o luar, na direção dele. Seu golpe atinge seu objetivo ao cortar por entre pele, músculos, ossos e dentes, praticamente arrancando a mandíbula do assassino, que fica ali pendendo frouxamente, como um cachecol.
O assassino uiva de dor, o verdadeiro grito dos condenados, que usa apenas a garganta para ser feito.
“Sabe”, você começa a falar, como tal descaso que poderia estar conversando com um amigo enquanto colhe repolhos, “eu pensei em mirar na perna ou no braço, mas aí teria que ouvir você implorando, mentindo, xingando ou mesmo tentando conjurar alguma feitiçaria. E eu prefiro que você apenas grite, aí saberei que está sendo honesto, ao menos.”
Os olhos do assassino estão arregalados pela dor e pelo horror de sua situação que tenta se afastar, mas as pernas dele não o sustentam e ele cai prostrado, tentando pateticamente segurar a mandíbula que, na queda, balançou e deve ter doído pavorosamente.
“Esse é um dos segredos do ofício”, você diz, um tom professoral. “Para provocar dor, nunca arranque totalmente. Sempre deixe pendurado, por daí a dor prossegue a cada movimento e o sangramento é praticamente o mesmo.”
Apavorado além da imaginação, o assassino tenta se arrastar para fugir, enlameando o belo manto de pano caro que denota a posição e a riqueza que ele, ou seu empregador, deve ter. A dor em seu estômago vem em ondas, saindo de seu abdômen e percorrendo o corpo todo, mas seu estado de regozijo sanguinário parece protegê-lo e dar-lhe forças para prosseguir com seus intentos.
Dois movimentos rápidos e contínuos de sua espada fende os tendões dos pés do assassino que, novamente, uiva em agonia.
Você cogita talhar a letra “T” no rosto do assassino e então matá-lo, porém uma réstia de consciência lhe invade e você decide terminar com aquilo. Levanta a espada e a enterra nas costas do assassino, que estrebucha como um peixe fora d’água e, por fim, entre sangue e urina, morre.
Seu prazer esvanece e, com ele, sua força sobrehumana para suportar o sangramento e o veneno que lhe percorre as veias. Você cambaleia e quando busca onde se sustentar uma dor inesperada explode em suas costas, mandando-lhe de encontro à parede e depois ao chão. Do solo você vê um dos capangas do assassino, aquele atordoado por sua harpa e depois soterrado pelos barris, segurando nas mãos uma tábua de madeira retirada de um dos barris quebrados. No olhar dele há nojo, quando vê seu antigo senhor morto, e, quando se vira para você, há morte. Ele abandona seu tosco pedaço de pau e coleta do corpo morto do assassino de seu pai a sua própria espada. Com a ferramenta de seu ofício nas mãos ele parece mais confiante e se aproxima para lhe entregar o que, há pouco, você entregou.
Incapaz de se defender, você apenas ouve o zumbido e, no ínfimo instante que precede a morte, pede a Ternura, Deusa protetora dos Bardos, que lhe receba em seus salões de festas e que seu pai lhe receba de braços abertos, sabendo que fora vingado.
Então, o grito.
Não o seu grito, porém. Do capanga, atingido no ombro por um virote de besta.
Na sua visão, enfraquecida pela perda de sangue, tudo são sombras, no entanto é capaz de distinguir um grupo delas se aproximando com pontos brilhantes, tochas provavelmente, nas mãos e bradando ordens e ameaças: “Larguem as armas e se ajoelhem ou se preparem para morrer!”
Ao fundo uma voz berra: “Cuidado com os barris! São de carvalho nobre! Malditos arruaceiros! Bandidos!”
O capanga deixa a espada cair com um resmungo e se ajoelha, segurando o ombro ferido.
O comandante sobreolha o local de sua luta e o vê. “Ele não esteve no corpo-da-guarda ainda esta manhã?”, pergunta ele a um de seus soldados.
“Sim, Comandante Kell”, responde o soldado, mecanicamente. “Morte do pai na estalagem, Comandante.”
“Do pai? Coisa terrível. Bêbado?”
Um dos soldados se destaca do grupo e se aproxima de você, para cheirar a você.
Não, Comandante. Apenas ferido.”
“Clérigo!”, berra o Comandante. Do meio da formação de seis soldados surge um homem de manto rubro – para você, apenas outra sombra. “Cure-o”, ordena, apontando para você. “Mas não muito. Só para parar de sangrar. Ainda não sabemos o que ocorre aqui.”
O clérigo aproxima-se de você e toca a sua fronte, com cuidado, para então começar a orar e, em alguns instantes, você se sente muito melhor. Enquanto o sacerdote exerce suas artes, o comandante avista o corpo devastado do assassino de seu pai e se recolhe, assustado.
“Comandante! Ele está envenenado também!”, alerta o clérigo.
“O que diabos?”, xinga o comandante.
O veneno faz seu trabalho e você começa a ter espasmos e sua consciência se esvai.
Destino, onde irá acordar o aventureiro Thomas ?
A Opção vencedora foi “Numa cela cheirando a mijo e mofo no Forte de Ferro, alegre por ainda estar vivo”
A verdade dói
Sua cabeça dói. Seu estômago dói. Você acorda sobressaltado por um pesadelo. Uma aranha com cabeça de mulher parecia copular com um homem enquanto dizia sem cessar “Mastho…Mastho…Mastho…”, repentinamente a criatura percebe que você está observando a cena e lhe encara com olhos esbugalhados “Nhaven!!”.
O suor frio percorre seu corpo e a sensação de angústia só piora quando você percebe que está agrilhoado contra a parede fria. Você enche os pulmões e grita por socorro. Durante horas. Em seu ventre um curativo empapado em sangue já enegrecido. E você volta a desfalecer.
“Mastho…Mastho…Mastho…”
Um balde dágua – pelo cheiro, seria urina – o desperta e desta vez um vulto posta-se á sua frente.
“Bem vindo á minha casa. Bem vindo ao Forte de Ferro, como muitos a conhecem.”
“Quem…”
“Não se esforce, Nobre convidado. Eu não quero que você tenha uma crise agora que seu corpo está se recuperando. Eu sou Conde Coldbrig, á seu dispor. Custou-me muito cara a permissão do Duque para reclamar seu corpo, não faça com que tenha sido em vão.”
Você tenta reunir forças e seu estômago queima. Dê um só impulso você estica as correntes e vai de encontro ao mandante. As correntes o impedem, quase deslocando seus dois ombros mas você não cai. Fica teso, ereto frente á frente com o assassino.
“As correntes foram feitas á ferro frio, sabe? Você nunca vai escapar daí a não ser que eu permita. Você deve estar se perguntando o por que, não?”
“euvoumatalocomofizcomseucapanga…”
“Tente se recuperar, bastardo. Sua hora se aproxima e você precisa estar em plenas condições para o ritual. E fique descansado, pois estou guardando seus pertences como eles merecem. No estábulo.”
Ao terminar a última sentença, o Conde deixa sua mão á mostra e ela está enfaixada com ataduras. Talvez ele tenha lepra. Talvez tenha se queimado. E ao pensar nisso você se recorda de seu pingente. Ele está quente, ainda pendurado ao seu pescoço, mas o azul deu lugar á um violeta escurecido pulsando com veios negros partindo do centro.
Você tenta pensar em uma saída, mas não parece haver muito o que fazer.
As horas passam e um sino do lado de fora anuncia cada uma delas. No meio da fria noite, quando o sino anuncia a meia-noite com suas doze badaladas, a porta se abre. Sua visão está clara, aguçada. O efeito do veneno passou e você se concentra apenas no ódio. Seu pai teria desaprovado, mas nada disso importa agora. O vulto do Conde está parado na porta, junto dele um sabre que reluz a lua argêntea. Em sua outra mão, ele traz um aparato ovalado, dourado.
“Sabe, garoto, você não tem culpa” – o conde começa dizendo. “Tudo o que você fez, foi nascer. E isso já basta para o mundo. E eu peço perdão aos deuses pela dor que serei obrigado a inflingir. Só há este modo, porém.”
Você reune todas as suas forças, seu ódio e sua sede de vingaça. Prevendo que você será o próximo a ser assassinado por este monstro você força as correntes. Elas não cedem, mas inacreditavelmente, a parede sim. Um bloco de pedra não aguentou a pressão aplicada e soltou os dois parafusos de ferro. Um de seus braços estava livre e você estava pronto para puxar o outro quando recebeu um banho do que parecia ser ácido. Seu corpo queima e você se joga no chão para aplacar a dor.
“Sabe, com esta eu não contava” – você ouve no fundo da mente – ” Subestimei seu poder, demônio.”
O homem parece se aproximar, pois o objeto dourado, como se fosse uma urna oval ilumina a cela em luz dourada. Você nota, enquanto se debate, que o conde irá aplicar-lhe o golpe de misericordia com o sabre que um dia foi seu. E você tenta fazer as pazes com os deuses. Sem sucesso.
Uma estocada vigorosa atravessa seu ombro e o paraliza.
“A prata” – diz o conde com casualidade sádica – “É o único meio de deter um demônio. Ou um filho deles, sabe? A prata anula a corrente mágica. O veneno não mata, mas prejudica. E a água benta queima. O ritual de exorcismo requer que você esteja limpo e você acaba de se urinar. Desejas que eu finalize aqui e agora o ritual ou gostaria de assear para que sua alma passe pelo julgamento divino?”
“d-diga-me o o que está havendo…”
“Você não sabe mesmo não é, cria?” – o conde retira de uma só vez o sabre de seu ombro, causando uma dor excruciante – “Você é filho de um demônio e de um bardo que ele tomou como consorte.”
“m-men-tiroso!”
“Garoto insolente, não vês que sou um clérigo? O título de conde foi me dado por conta de minhas vastas terras. Minhas ovelhas as ofereciam e eu tomava de bom grado enquanto as guiava pela pradaria que é o paraíso. Isto que lhe queimou foi água benta, prova inconteste de que és um abissal. Como eu havia dito, você não tem culpa, mas não tem lugar em nosso mundo. Terás que ser expurgado. O Duque me cobrirá de honras quando perceber que eu livrei suas terras de mais um demônio.”
O conde perde você de vista vangloriando-se e acalentando seu ego. Não percebe que sua mão alcança o bolso e dentro dele a última porção de cristal em pó. Antes que ele consiga imobilizá-lo novamente você desaparece.
Diz-se que os demônios não precisam de componentes para fabricar sua magia. E este não parece ser seu caso. Sua forma fantasmagórica corre livre cela afora, insubstancial ao material e invisível aos mortais. No final do corredor você vê uma porta entreaberta. Á sua esquerda o corredor prossegue por muitos metros antes de penetrar em escuridão. Á direita, uma escada sobe espiralada. Para onde agora?
Qual direção seguir?
A opção vencedora foi “A escada espiralada”
Some kind of monster…
Você voa escada acima, ansiando pela saida. Não há tempo para explorações e sua mente trabalha como uma fornalha tentando digerir tudo o que se passou. A escada sobe por um lance e termina em uma ante-sala pouco decorada, de onde se vê uma porta e ao lado desta outra escada reta, que sobe.
Você imagina que está no andar térreo e vai em direção a porta, atravessando-a. Você podia sentir o gosto da liberdade e já estava pensando no que fazer com ela.
Ledo engano, a ante-sala leva á uma sala maior repleta de guardas, bem no momento em que você sente o efeito de sua magia esvair. Antes, porém, lhe chama a atenção uma criatura bizarra, do tamanho de um prato estacionada na parede acima da porta oposta. Você retorna ao mundo material, e a criatura vai desaparecendo, não antes sem olhar fixamente para você. É uma aranha, com rosto humano.
A sala parece com uma delegacia, uma mesa com cadeira, molho de chaves pendurado na parede, banco de madeira e nenhuma decoração além de um brasão. Três guardas estão sentados no longo banco de madeira, mais um está sentado á mesa descascando uma fruta. O quinto e último estava montando guarda junto á porta que você atravessou. Todos se espantam quando você surge no meio da sala.
“O prisioneiro! Peguem-no!”
Você sabe que não tem chances contra cinco guardas armados mas tenta forçar uma investida em direção á porta. O baque do seu ombro contra o guarda, desequilibra-o momentaneamente e uma dor aguda se transforma em raiva quando, pelas costas, lhe seguram os cabelos. Neste momento, instintivamente sua visão muda como quando você utiliza o cristal em pó, e você volta a ver aquela aranha. Ela está no teto, indo em sua direção, salta em seu encontro e sua visão escurece. Você não se lembra do que ocorreu mas quando sua visão retorna ao normal, os cinco guardas estão caídos no chão catatônicos com olhares aterrorizados. Sua cabeça lateja. pulsando forte.
Após isto sair dali é fácil. Antes de roubar um cavalo, você recolhe suas coisas – porque o Conde havia dito a verdade? – e parece que não há mais ninguém nesta Fortaleza. Ele deve estar com medo, você pensa. Pois você mesmo está com medo, sem entender o que acontece. Alguém deve saber a resposta para isto. Mas quem?
Quem você deve procurar?
A Opção vencedora foi “A Elfa Bruxa que lhe ensinou seus primeiros truques de magia.”
Parlée
Por dias você cavalga, tentando se recordar exatamente como chegar á casa da única pessoa que poderia lhe ajudar nessa situação. O reino dos Elfos nunca foi conhecido por seu acesso livre e irrestrito, tendo até mesmo a fama de se esconder dos mapas e de magias de divinação. É dito popular que o reino de Senda dos Elfos só é encontrado se ele assim desejar.
Após uma semana de viagem por trilhas desconhecidas e você se espanta com sua sorte de não ter encontrado problemas. A caça não era farta, mas você nunca precisou de muito. No final do oitavo dia você encontra a fronteira do reino Elfo. A tinta nas árvores assinalam a proibição de quem quer que seja, adentrar a mata sem expressa autorização e você hesita por um momento antes de se resolver e pisar além do permitido.
“Você é corajoso, garoto.”
“Tive um bom professor.” – Você responde sem se virar em direção á voz.
“Seu pai era um tolo não um corajoso.”
“E mesmo assim você o amava, Svanja.”
Svanja, a elfa-bruxa herdeira do reino e sua madrinha se materializa ás suas costas. Anos atrás havia lhe ensinado este truque e mais um pouco de magia. Ela lhe dizia que a arte exigia muito mais dedicação do que você poderia um dia dispensar. Mesmo assim, Svanja nunca cobrou de você que se dedicasse á magia. Ás vezes parecia lhe desencorajar. Você e seu pai iam e vinham livremente á seu reino e ela sempre parecia saber quando. Nunca fazia perguntas.
Todas estas memórias vieram á sua mente enquanto a elfa penetrava seu olhar com o dela.
“Ele… ele faleceu, tia.”
“Eu sei, Thomas, ele me contou.”
“Você falou com ele?”
“E não é isso que bruxas fazem? Encantam princesas e falam com os mortos?”
“Esqueceu da troca de bebês…”
“Seu pai pediu que você o perdoasse. Que ele não sabia.”
“Então é verdade? Eu sou mesmo filho de um …”
“Creio que sim” – Ela se apressou em interrompê-lo. “Eu tinha minhas desconfianças de que você não era um garoto comum, você aprendia muito rápido e eu tive que inventar uma desculpa para não lhe ensinar mais sobre magia. Seu potencial era deveras perigoso.”
Vocês caminham mata adentro, enquanto trocam algumas palavras, evitando o assunto para que as árvores não aprendessem demais. Em pouco tempo vocês chegam em uma casa simples, construída no oco de uma árvore milenar. Ali, em sua residência protegida por rituais e encantamentos a elfa lhe diz o que sabe sobre sua condição.
“Você cavalga acompanhado. Espero que tenha ciencia disso.”
“Eu vi uma criatura enquanto estava no mundo imaterial.”
“Ela vem te acompanhando, observando, creio que até mesmo protegendo.”
“Você a vê agora?”
“Ela não tem permissão para entrar aqui. Esta criatura é o que nós arcanos chamamos de tentáculo. São espiões imateriais. E só há um motivo para um tentáculo demoníaco tentar protegê-lo.”
“Eu sou um deles…”
“Você aprende rápido mesmo.”
“O que devo fazer? Eu não pertenço aos demônios, não me sinto como um deles.”
“Ainda não. Espero que você não tenha nunca sucumbido ao ódio. Ele o aproximará dos seres inferiores.”
“Eu matei um homem. E gostei disso.”
“Esta é uma péssima notícia, pois a cada ato vil você se aproxima mais de suas raízes. E vai chegar uma hora em que a ligação entre você e sua herança estará tão forte que um simples chamado de sua mãe o dominará completamente. Você será compelido á seguir suas ordens. E gostará disto. É por isto que você banir o tentáculo de volta para os planos inferiores. E não espere que seja uma tarefa fácil.”
“Mas posso contar com sua ajuda, sim?”
“Apenas para acessar o mundo espiritual, Thomas. Um demônio corrompe tudo aquilo que toca. A não ser um outro demônio ou um devoto.”
“Um clérigo?”
” Também…”
“É por isto que não se veem muitos magos passeando pelo plano imaterial”
“A boa notícia é que banir um demônio é simples”
“Eu achei que não era tarefa fácil.”
“Eu disse simples, não fácil. Tudo o que você precisa fazer é trazer a criatura para o plano material e destruí-la.”
Mais uma vez você se vê diante de uma encruzilhada. A pessoa mais poderosa que você conhece não pode te ajudar muito. Engajar combate com uma aranha demoníaca não é uma idéia muito atrativa. Você decide improvisar com o que tem e decide dialogar com a criatura. Afinal apenas uma idéia tão maluca quanto esta pode dar certo. E não existem outras opções, existe?
Juízo Final
Você deveria agir rápido e deveria se sair com um bom plano. Ao invés disso você se prepara.
Ao invés de conversar com o demônio, você decide agir e trazê-lo para o plano material. Porém isto nunca poderia ser feito sem preparação e voce exije que Svanja lhe ensine algum feitiço de proteção.
Dominar este feitiço leva tempo mas você rapidamente se torna capaz de realizá-lo. Você sente que Svanja está apreensiva enquanto você passa duas semanas praticando. Cada dia você sente a magia mais forte dentro de você e as noites silenciosas são interrompidas pelo som de sua harpa.
O dia do confronto chega, você sabe que não pode mais adiar e se despede de Svanja como se fosse a ultima vez que a visse seu orgulho o impede de chorar, pelo menos dos olhos para fora.
“Thomas, você não pode se deixar tentar. Estas criaturas farão qualquer coisa para ter você. Não esqueça sua harpa.”
“Eles terão meu sabre, por ter matado meu pai.”
Com estas palavras você invoca o feitiço que o manda para o plano imaterial.
O mundo Astral é um borrão do mundo físico, mas você nunca reparou muito nestes detalhes pois estava sempre correndo quando sob seu efeito. Agora olhando com calma você nota que certas coisas existem em um mundo e não existem no outro, apesar de serem quase os mesmos.
“Demônio!” – Você grita, sua voz reverbera metalicamente “Aqui está seu protegido!”
O vento no mundo astral parece ter vida própria e zomba de sua bravura soprando frio e intermitente.
A espera de uma resposta começa a lhe deixar nervoso e sua concentração perde um pouco do foco. Parecendo esperar este momento, você sente algo subindo pelas suas costas.
“Filho… te esperei tanto.” – Sobre seu ombro direito uma voz feminina sussura em seus ouvidos, os lábios tocando levemente sua orelha.
Você se vira instintivamente e seus olhos encaram a criatura que você já havia visto anteriormente.
“Você não é a minha mãe, demônio!”
“Não, Thomas. Eu estou falando através de um mensageiro. Um guardião. Alguém precisa tomar conta de você, não? Eu estou presa, filho. Preciso que você me liberte.” – A voz é profunda, como se realmente não viesse diretamente do interlocutor. O vento frio aumenta numa péssima demonstração de humor.
“Nunca! Eu não sou o filho de um demônio!”
“Se você não me libertar, muitas pessoas vão sofrer Thomas. Inclusive seu pai que está preso entre os mundos.”
“Afaste-se de mim, criatura!” – Você arremessa a Aranha-Mulher para longe e ela aterrisa de barriga para cima, retomando sua posição rapidamente.
“Você não me deixa outra escolha, garoto”
Ao dizer isto, a Aranha salta sobre você mas você já esperava por isto e ao mesmo tempo em que saca sua arma, você apara o ataque, desviando a trajetória da criatura.
Segurando a arma com as duas mãos, você aguarda por uma nova investida mas ela não acontece. Ao invés disto a criatura começa a ganhar formas bípedes e o que eram patas tranforma-se em braços. Seis deles munidos de longas garras.
“Era disso que eu estava falando” – Você murmura antes de desferir, você mesmo, a investida.
Sua espada reluz prateada sob seus movimentos rápidos. Você guarda na ponta da lingua o feitiço que aprendeu, preparado para utilizar na hora certa.
O demônio contra-ataca com ferocidade e os golpes dele acertam mais que os seus. Em um ataque bem esquivado o monstro deixa um dos braços vulnerável demais e na posição perfeita para ser decepado.
Um grande erro, você percebe em seguida. O sangue esverdeado que jorra do ferimento é acido e o atinge no rosto, cegando-o por alguns instantes. Imediatamente você evoca o feitiço de proteção que impede a criatura de tocar sua carne. O efeito é curto e você intencionava utilizar o feitiço de outra forma, mais vantajosa, mas no momento foi tudo o que você conseguiu pensar.
Aproveitando-se deste momento, sem conseguir tocá-lo, o monstro sorri e você sente sua arma voar. Nauseado pelo cheiro de sua própria pele queimando você tenta se afastar. A criatura parece querer brincar com uma presa fácil e você nem procura imaginar o que um demônio desses entende por divertimento. Você cambaleia, tentando enxergar algo em seu caminho, mas só vê borrões e vultos.
Você tem certeza que sua morte se aproxima quando percebe que o efeito da magia está terminando.
“Não esqueça sua harpa.” – Esta lembrança vem como um pensamento colocado em sua mente.
Você saca sua harpa e começa a dedilhar notas improvisadas, numa sequencia rápida enquanto ajuda a elevar o tom com sua voz, cantando palavras que nem mesmo você entende. Você sente uma enregia mágica ser liberada ao mesmo tempo que sua visão começa a clarear e a cena á sua frente o surpreende.
Como se tomada por espasmos o demônio convulciona o corpo no ritmo imposto pela sua música enquanto uma energia mística os envolve. O demônio parece estar preso em suas notas e você emite a palavra de comando que interrompe a viagem Astral.
Você está no mundo material novamente e junto á você uma tarântula do tamanho de um prato parece agonizar, saltando com suas sete patas.
Sua missão foi cumprida com sucesso, apesar dos danos.
O que você pretende fazer com o demônio-aracnídeo?
O que fazer com a criatura?
A Opção vencedora foi: Interrogar a tarântula de sete patas. Ela há de falar nem que seja por sinais!
Requiém
Você se dá conta de onde está e age rapidamente: pulando sobre a aranha, que está incapaz de reagir, você a agarra fechando seus punhos com força, ajoelha-se e com o aracnídeo entre as mãos começa a vociferar.
“Cria das profundas do Abismo, vai me dizer o que está acontecendo!”
Você mal tem tempo de notar o quão ridícula a cena parece quando ouve em sua mente uma voz feminina e doce.
“Claro que vou, Thomas. Tudo o que eu mais queria era falar contigo”. A voz prende sua atenção de maneira tal que você não consegue ignorar – doce, suave, quase hipnótica. “Estou presa nos planos inferiores, utilizando-me desse lacaio para observá-lo, cuidá-lo e não deixar que nada de ruim possa acontecer a meu primeiro e único filho.”
Você tenta reagir, argumentar, mas parece impossível, e ainda é capaz de sentir as mãos de Svanja sacudindo-o, mas por mais que queira não consegue se mover. Mal nota quando um calor percorre seu corpo e é descarregado na elfa, de modo que você sequer pode controlar. Ela não mais importuna. A voz melodiosa e doce é tudo o que você deseja ouvir.
“Seu pai foi escolhido por uma razão, Thomas. Ele tinha qualidades que lhe poderia ser útil. Seu pai nunca foi importante. Você era o centro de tudo, desde o início e eu teria cuidado de você pessoalmente não fosse aquele Conde me exorcizar e me prender aqui. Fique comigo e sinta sua herança fluir.”
As coisas faziam sentido, agora. Sua vida fazia sentido. Desde seu nascimento você errava pelo mundo, seguindo os passos daquele bardo sem objetivos.
Suas mãos não mais pressionam a aranha e há algum tempo ela está repousando nos seus ombros, sussurrando-lhe seu propósito de vida.
“Vê, filho meu, como o destino conspirou para nossa união? Todas as ferramentas foram-lhe oferecidas, tentações e caminhos diferentes se puseram à sua frente mas, mesmo inconscientemente, permaneceste fiel a mim.”
Impossível negar as verdades nessas palavras. Muitas vezes você escolheu as saídas mais violentas, as barganhas fáceis e os feitiços arcanos. A espiral descendente estava intrínseca em seu sangue e não havia mais como negá-la. Svanja havia lhe dito para não dar ouvidos à criatura apenas para evitar que sua vida se tornasse plena. Agora você entende que o calor que lhe percorria a espinha era o poder arcano crescendo. Você se sente capaz de conquistar o mundo.
“É isso, meu filho. Meu arauto. Prepare o mundo para o retorno triunfal de sua mãe e tudo pertencerá a nós!”
Você é capaz de conquistar o mundo – e por que não fazê-lo? Influenciado pela doce voz de sua mãe e guia, você passa a planejar os embates vindouros.
Uma campanha de terror terá início sob seu jugo. Antes de partir, entretanto, você segue os conselhos abismais e decide exaurir a moribunda Svanja, tomando o poder que sempre fora seu e ela lhe negou.
“Você fez muitos inimigos em sua vida, Thomas. É hora de liquidá-los”.
O próximo a sofrer sua ira é Conde Coldbrig. Nos dois dias em que você passa visitando-o, o clérigo urra, chora, implora e com um feitiço você o manda ter com sua mãe para um acerto de contas. De fato não foi uma cena fácil de ser esquecida, mas o conde mereceu ir descer às Trevas sem ter o direito de retornar a seu criador, do mesmo jeito que seus assassinos fizeram com seu pai.
O agente funerário deu menos trabalho. Este parecia já saber as boas novas e não ficou surpreso ao ver seu pingente reluzindo negro como sua harpa de ébano. A harpa, aliás, provou-se um instrumento poderoso nos dias que se seguiram, destruindo com os dedilhares corretos até as mais resistentes pilastras.
Ruína era tudo o que você deixava quando você partia – uma cacofonia de lamentações e achava isto belo. Choro, gritos, pedidos de clemência eram belas músicas aos seus ouvidos e você se sentia completo, levando a canção dos nove infernos para o mundo, abrindo passagem para o retorno da dama-do-desespero, sangue do seu sangue e com ele vocês lavariam tudo o que era conhecido pelos mortais.
FIM

