Não sou crítico de cinema. Não entendo de técnicas de câmera, de direção, de fotografia, nada disso. Não ia nem mesmo postar uma crítica de “A Bússola de Ouro”, não que ele não mereça, apenas não consegui prestar tanta atenção no filme como gostaria (fui impedido por um bando de moleques.).

Assim, fui buscar em alguns sites mais informações sobre o filme e sobre o livro que o gerou. Foi então que descobri a grande controvérsia que esta obra tem causado.

Se você nunca ouviu falar nesta obra, você tem aqui um companheiro. Até ano passado nunca tinha ouvido sequer menção á esta trilogia (mais uma!!). Então no EIRPG de 2007 vi um stand com vários livros “A Bússola de Ouro”. Não botei reparo pois achei sinceramente que era a continuação de “As Crônicas de Nárnia” e apenas depois fui saber que não.

Ontem resolvi que valia dar uma chance.
Não me desapontei. Mas não dei piruetas de excitação também.

A bússola de ouro é a primeira parte da trilogia “Fronteiras do Universo” (His Dark Materials) de Philip Pullman, criada em 1995.Sua ambientação é um universo paralelo ao nosso, com muitas semelhanças e também algumas diferenças cruciais.

Mas antes de falar do filme, vamos falar da polêmica !
Philip Pullman é um ateu declarado e parece ter escrito esta trilogia em oposição á Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, um católico fervoroso cujo personagem principal, tem constantemente sua imagem ligada a Jesus. Talvez por querer impor comparações que A Bússola de Ouro pareça com As Crônicas de Nárnia. Ou não.

A saga toda faz críticas ao cristianismo, que em seu mundo leva o nome de “Authority” (ôe, alfinetada!) e nas outras duas partes (segundo o wikipedia)  acresce conceitos sobre fisica quântica, metafísica, filosofia, simbologia bíblica e outras “artes céticas”.

Mas espera, como um cético fala sobre fantasia e universos paralelos em uma história sobre um pó que transcende os mundos livremente? Deve ser porque atualmente até os físicos mais céticos têm se dobrado sobre esta questão e aceitado que é possível que existam realmente universos paralelos (Recomendo este documentário da BBC. Vai botar muitas minhocas na sua cabeça se já não houverem.).

A igreja, claro, retrucou.

Como é uma trilogia e o primeiro filme acabou de estrear, esta discussão dará muito o que falar ainda. Mas eu acho que se “Nárnia” pode falar de fantasia e ser a obra prima de um católico convertido, porque não deixar um ateu declarado expressar seus pontos de vista? As duas obras são voltadas ao público infanto-juvenil, então por que se pode influenciar uma criança com um leão falante com pinta de messias e não com um “furão” falante que é a alma de uma garota? O que não deveria influenciar uma criança é a hipocrisia. Esta sim devia ser banida. Os ataques, as alfinetadas, as referências e alusões deveriam, claro, ser explicadas pelo autor pois ele tem responsabilidade sobre aquilo que publica. Mas não deve de forma alguma ser censurado ou boicotado por conta de suas idéias. Lembrando que eu não sou ateu e não estou de nenhum “lado”. Apenas creio na liberdade de idéias e do raciocínio.

Vamos, enfim, ao filme em si.

Já disse que se passa em um universo paralelo ao nosso com diferenças cruciais e muitas semelhanças. A maior destas diferenças são os Daemons (traduzidos como Dímons) que são a alma da pessoa. Como em nosso mundo a alma encontra-se do lado de dentro, neste universo ela permanece ao lado da pessoa sob a forma de um animal. Este animal é mutante enquanto a pessoa é criança e se fixa quando ela envelhece, adotando a forma de um animal que traduza sua personalidade. Se o dímon morre, a pessoa morre e vice-versa.

É um conceito muito interessante e durante o filme você se pega reparando nos animais que acompanham cada personagem.

A ambientação lembra muito o RPG Castelo Falkenstein misturando enormes Dirigíveis com bruxas aladas, grandes máquinas, pólvora e ainda assim um nível tecnológico baixo, de costumes e vestimentas vitorianas.

As paisagens parecem saídas da Terra Média, muito verde, muitas montanhas e … Gelo. Muito gelo.

O enredo não tem muitas complicações neste primeiro filme e se resume á garotinha-corajosa-e-rebelde-é-a-escolhida-para-salvar-o-mundo. Eu particularmente não gosto de crianças no papel de salvadoras do universo. Desde As Crônicas de Nárnia, passando por A História SemFim e Desventuras em Série até Harry Potter, este estilo não me agrada. Me parece pouco crível que uma criança, mesmo sendo “a da profecia” consiga sobrepujar vilões adultos e/ou sobrenaturais. (Ah sim, os Hobbits me irritam, antes que alguém argumente e claro, A Historia Sem Fim tem seu ótimo argumento para utilizar uma criança como protagonista).

Tirando este fato, os personagens são bons e os atores estão bem em seus papéis. Nicole Kidman dispensa qualquer comentário… Mas o que é aquele macaco loiro dela? Bichinho bem perturbador.

Engraçado como os Dímons sempre são o principal assunto quando se fala deste filme e eles permanecem vindo á tona. Aliás, se você gostou, no site do filme tem um campo para você descobrir qual é o seu Dímon. (O meu é uma guaxinim… deprimente…). Merece também um aparte o fato de a alma da pessoa se chamar daemon. Provavelmente é mais uma das alfinetadas do autor, mas sinceramente gostei do nome. No Brasil descaracterizaram a palavra, em uma não-tradução. Em portugal traduziram como gênios. Parece que esta palavra realmente causa medo nas autoridades (autorithy?!). Outro fato que vale a pena salientar é que a maioria das Autoridades do mundo paralelo (cujo nome não descobri) tem como Dímons répteis ou insetos, ás vezes uma ave de rapina ou uma hiena, dando mais uma vez a conotação de que as Autoridades são vilãs. (e tome-lhe agulhada!).

A única coisa que tira um pouco o foco dos dímons são Ursos de Armadura.

Não sei se são para rir ou para chorar, se são legais ou ridículos. Mas com certeza, estes ursinhos da coca-cola causam impacto. Primeiro porque o Urso Polar de Armadura aliado da protagonista tem a voz do Gandalf (Eu rezei pra ele gritar “You Shall Not Pass”). Segundo porque as lutas em que eles atuam são realmente boas. O filme não mostra cenas fortes, mas eles te deixam imaginando gente mutilada caída por todos os lados.

E sem querer contar o final, mas já contando (Calma, não é “spoiler”) o filme te frustra ao terminar no meio. Como não poderia deixar de ser numa trilogia. O que eu quero dizer é que não há uma boa finalização da primeira parte. E você fica com a sensação de: “Já?!”

O filme em si não é um primor de roteiro e parece um pouco mutilado, passando reto por muitas coisas que poderiam ser melhor detalhadas. Mas é a adaptação de um livro e como tal deve ter sofrido com a edição. No fim ele vale pelos efeitos. O combate dos ursos é realmente excitante, Nicole Kidman é uma deusa, os atores estão bem e a história apesar de tudo é boa. O DVD provavelmente virá recheado de extras mas vale conferir no cinema, naqueles dias em que todos pagam meia.

RPGs que vão bem com este filme:

- Castelo Falkenstein (Sem dúvidas!)

- D&D (com ressalvas…)

- Changeling: The Dreaming (Parece que todos são um pouco Pooka !)